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Quem sou ?

Quem sou, para além de muitas coisas, do que penso, sinto e faço, com a minha formação de psicóloga e mediadora, trabalho na dinâmica das relações humanas, da resolução de conflitos essencialmente na área da família. Intervenho há mais de 20 anos em todos os campos em que possa contribuir para uma maior qualidade da comunicação, das relações humanas ou seja na qualidade do coexistir.

Para além do meu trabalho na assessoria técnica aos tribunais na área da família, participei em inúmeras formações, seminários, reflexões e grupos de trabalho sobre resolução de conflitos, mediação, comunicação.

Traduzi para português o  livro de Jean Louis Lascoux  » A prática da mediação » e colaborei em vários livros colectivos sobre mediação e resolução de conflitos entre os quais « A mediação »  dasEdições Minerva e  » A mediação, cultura de paz  » Universidade e Pernambuco.  Por vezes publico umas reflexões no blog https://entreagente-comunicoergosum.blogspot.com/

Foi a impulsionadora e presidente da Associação Fórum Mediação, durante mais de dez anos e representante em Portugal da « Chambre Professionnelle de la Médiation et de la Négociation.

 

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olhares cruzados sobre dramas do desamor no cinema e na justiça

Há poucos espaços  que promovem a reflexão numa sociedade baseada na
efemeridade de informação e comunicação fast food das redes ditas sociais.
A semana passada estive num desses espaço, no teatro do Campo Alegre no Porto onde é promovido um debate após visualização de um filme relacionado, neste ciclo, com um tema em debate no sistema judicial.

O filme projectado foi « jusqu´à la garde », um filme francês de 2017 dirigido por Xavier
Legrand, exibido na secção principal de competição do 74º Festival
Internacional de Cinema de Veneza, onde ganhou o Leão de Prata. Em português foi traduzido indevidamente para « Custódia partilhada » no Brasil apenas por Custódia.

Tais dimensões redutoras  de fenómenos complexos como o denominado síndrome de alienação parental que remete para um binôma simplista alienador/alienado quando o fenómeno deveria sera analisado numa
perspectiva mais sistémica tal como aliás induz, do meu ponto de vista, o filme e como foi focado por alguns intervenientes no debate.

Um filme dramático como muitas vidas dramáticas  que originou um
debate para uma reflexão para além das construções maniqueístas e
binárias que o filme pode induzir do justo/injusto, bom/mau,
certo/incerto, seguro/inseguro.


Até na tradução começa a ambiguidade e é face à ambiguidade e
complexidade dos dramas de uma separação não resolvida e do envolvimento
de uma criança que interioriza a necessidade de gerir as vulnerabilidades dos adultos.

Não deixo de considerar preocupante a juridiscialização de disciplinas não jurídicas que acabam por adquirir características jurídicas tal como aconteceu com o referido sindrome… que até já  reveste uma roupagem de verdade incontestável em algumas decisões  e até enquadramentos jurídicos. Enquadramentos jurídicos e despachos que há uns anos atrás também defendiam, sustentadas pelas teorias prevalecentes da psicologia do desenvolvimento daqueles tempos que enfatizavam o papel das mães, tais mães como figuras insubstituíveis na atribuição de tais « guardas », colocando os pais como apêndices acessórios e provedores materiais.

O sistema recorre cada vez mais desde os meados do século XX a saberes adjacentes, nomeadamente à psicologia considerada necessária para enquadrar e regular as dimensões psicoemocionais numa sociedade em que prevalece o sujeito enquanto individuo.

As retóricas dominantes dos sistemas de uma circulação dos saberes entre a ciência e o direito embora levem à recodificação e alterações legislativas, tal sistema ainda está longe de secundarizar as suas normas e procedimentos intrínsecos à  própria sobrevivência do sistema.

Na realidade embora a ele recorra compulsivamente como última forma de
reconhecimento, tal sistema continua a desqualificar  e a silenciar as
famílias, os pais e  até  as crianças.
As crianças agora de facto são ouvidas, são ouvidas nas narrativas
possíveis que dá o tal direito  de ser ouvido, sem ser realmente escutadas. Mas será que
um tribunal é um espaço para ouvir ou escutar.

O direito apenas ouve, a psicologia, a pedagogia e qualquer outra intervenção que se posiciona enquanto suporte transformador de uma situação que provoca sofrimento, escuta, ouve para além do dito em que se cristaliza a retórica do mundo jurídico, esgrimindo discursos centradas em dinâmicas de persuasão e
preocupações do seu locutor. É a principal ficção veiculada pelo mundo jurídico: supostamente
centrada na defesa do cidadão, distancia-se das reais
necessidades do referido cidadão com uma parafernália de procedimentos, registos, requerimentos, relatórios, pareceres e que na realidade poucas mudanças introduzem.
Ninguém muda com uma decisão judicial. O direito, contem, controla, pune, repara mas ainda não há indicadores que seja actor de mudanças, nem individuais nem sociais que tem dificuldades em acompanhar.

Claro que nesta evolução de limites mais difusos entre os espaços institucionais, a cooperação e a circulação entre as diferentes ciências e o direito, o direito veio absorver na fundamentação  das suas decisões normalizadoras  os critérios enunciados pelos diferentes saberes nomeadamente na correcção dos ideais de família e
parentalidades vigentes.
As praticas discursivas desta circulação de saber continua a ser centrado sobre normal, anormal, funcional/disfuncional, responsabilidade/irresponsabilidade, competente/incompetente focando-se nas falhas, nos disfuncionamentos e não na preocupação de recentrar o sujeito na clarificação das suas preocupações, motivações, interesses,  na singularidade  e consequências dos diferentes pontos de vista e
sobretudo na sua liberdade responsável de tomar decisões para além de todas etiquetagens redutoras que lhe são atribuídas e que o filme pode induzir.

Porque hoje é 01 de maio: o sentido do trabalho

Porque hoje, 01 de maio é dia mundial do trabalhador, em Portugal apenas desde 1974.

A comemoração de tal data interpela sobre o sentido dado ao trabalho, a intensificação dos ritmos de trabalho, o maior empenho exigido seja em termos físicos, intelectual e até emocional, inclusive no dia 01 de maio. A normalização do mundo do trabalhador era no dia 01 de maio de 1974, o direito de descansar, comemorar e pensar em transformar as relações de trabalho. Hoje num mundo regido pelas necessidades de lucros de multinacionais, em algumas empresas é impensável não trabalhar o dia 01 de maio.                                                                                                                             

A inscrição na dimensão do trabalho ou na falta dele está intimamente ligada à percepção que temos de nós próprios, à nossa imaginação que em alguns casos até pode revestir uma dimensão apaixonante que nos aliena do resto do mundo.

Outros mantêm com o mundo do trabalho uma relação de desamor, até de ódio e de sofrimento que aguentam por representar a única forma de sobrevivência material.

Para as mesmas funções, vemos uns investir inclusive as tarefas mais rotineiras com leveza e dedicação, outros como um fardo insuportável, como apenas uma fonte de sofrimento psicológico e físico que outros chegam a santificar emoldurando-o nos traços ascéticos do dever, envolvimento e reconhecimento social.

A mesma coisa, de facto, pode ter muitos sentidos, o sentido não pertence às coisas, mas à representação que temos sobre essas coisas através do que pensamos, fazemos e sentimos e formas como comunicamos tal sentido atribuído as coisas.

Independentemente desses sentidos tão diversos, as organizações exigem uma excelência funcional, um rendimento produtivo direccionados para o objectivo da instituição pouco compatível com as vulnerabilidades humanas e uma ética organizacional centrada no respeito e reconhecimento do outro.

Até que ponto a exigência funcional, a procura incessante de competências promovida pela sociedade do século XXI exigida no mundo do trabalho mas também na esfera mais privada enquanto pais, filhos, esposos, amantes.. A eficácia e competência também já invadiu o nosso tempo livre e a prática dos tempos de lazeres como viajante, desportista, jardineiro, cozinheiro, enclausurando numa restrição dos sentidos que proporcionamos à actividade humana e ao mundo do trabalho.

Justina e as crianças mal-entendidas

Era uma vez uma juíza com um nome predestinado, chamava-se Justina.

Já não era nova, nem era muito velha, embora de longe, à custa de enérgicas caminhadas e de muitos cremes, mantivesse um corpo e um rosto de jovem.

Com os anos, Justina ficava cada vez mais pensativa e preferia ouvir cada vez mais as pessoas em vez de sentenciar e julgar. Ao longo dos anos, as suas diligências tornavam-se mais longas e sabia que tinha ganho fama de ser vagarosa. Mas também era do seu gabinete que as pessoas saiam menos tristes e um pouco menos zangadas e por isso Justina sentia-se cada vez mais útil.

Nos últimos anos, Justina estava a trabalhar num Tribunal de Família e Menores. Era ainda assim que se designava tal como quando tinha sido criado, há mais de meia século num tempo em que a família, tal como tinham vivido os seus pais, prevalecia enquanto valor sobre os tais menores. Era de família porque naquela época só era reconhecido um tipo de família monocórdio convencional totalitária e nem sequer se vislumbrava o reconhecimento da diversidade das famílias possíveis; era menor porque prevalecia a incapacidade, a irresponsabilidade da infância e a submissão à ordem familiar.

Agora os menores, entidade cada vez mais rara num país envelhecido, já tinham acedido ao estatuto de criança ou jovem e tinham sido colocados, pelo superior interesse que lhes atribuíam os adultos, no centro de guerras que não lhes pertenciam.

Justina estava preocupada. Nos últimos anos via desfilar cada vez mais os pais destas crianças que vinham gladiar escudados na arena dos tribunais por trás da vontade dos filhos. Tinha cada vez mais dúvidas se a ouvir as crianças afinal não servia mais o interesse dos pais do que os dos filhos.

Percebia nos petizes que se sentavam à sua frente as angústias provocadas pelo peso das palavras, o dizer sem dizer muito para não prejudicar nem o pai nem a mãe, emaranhados em lealdades, alianças, inseguranças, culpabilidade porque colocados perante uma escolha impossível.

Hoje tinha ali à sua frente, tal como a lei mandava, o João Gabriel, de 12 anos, que os pais entre acusações, provas, perícias, direitos e deveres se disputavam, tal como continuavam a quezilar, pela casa, pelo dinheiro e qualquer outra coisa que os encurralasse mais no ressentimento e rancor. O seu desamor era muito mais intenso do que a união pardacenta e sem paixão que os tinha unido de mais de quinze anos.

Justina já tinha ouvido duas pessoas infelizes e agora tinha à sua frente uma criança triste e ansiosa. Nem sempre as outras crianças tinham um olhar tão cheio de tristeza, geralmente optavam por se esconder por trás das palavras dos adultos com quem viviam amordaçadas no seu querer dizer pelo medo e receios de entristecer o pai ou a mãe.

João Gabriel tinha o olhar triste, mas como um soldadinho valoroso, retinha as lágrimas e aguardava. Torcia os dedos e ritmava com a perna a turbulência da sua ansiedade. Justina esperava encontrar a palavra certa para o deixar um pouco menos triste….

-“Parece que te deixa triste e nervoso teres vindo aqui…o que é que poderia acontecer para ficares menos triste?

Olhando num acto de bravura Justina nos olhos, João Gabriel respondeu hesitante: « ….o que poderia acontecer era o tempo passar mais depressa para eu  ficar mais velho para poder fazer o que quero e não estar aqui…

Não quero estar aqui, não quero falar do meu pai, nem da minha mãe porque não posso falar do meu pai à minha mãe, nem da minha mãe ao meu pai. Eles fizeram o que quiseram e até está bem assim, ouço menos barulho, agora têm que resolver….mas eu só não quero estar aqui… »

Justina pensava que por mais quezilentos e desajeitados que tivessem sido aqueles pais, tinham conseguido transmitir ao filho a liberdade de pensar por ele e dos responsabilizar enquanto pais pela procura de soluções decorrentes de um projecto de divórcio que afinal era apenas deles.

Justina pensava que João Gabriel estava certo. Já que os pais tinham sido responsáveis a 100% do problema também tinham que se responsabilizar a 100% da solução e reorganizar as suas vidas para continuar a ser pais.

Afinal ambos talvez estivessem à espera que aquela criança soluciona-se um pouco da infelicidade em que tinham mergulhado. Eram desajeitados e não sabiam com sair dali, também era por isso que recorriam ao tribunal. Afinal há poucos serviços a quem recorrer para ajudar a ser pais, para comunicar, para gerir o luto de uma relação, para se reconstruir para além das divergências. Tinha tentado remeter-lhos para a mediação para ver se comunicavam para além dos gritos, dos silêncios, das alegações e das contra-alegações.

Pensava que com a mediação podiam ser menos requerentes e requeridos e um pouco mais pais preocupados em encontrar soluções para preservar o bem estar do João Gabriel para ele continuar a querer ser durante mais alguns anos uma criança despreocupada e feliz.

Justina ao final do dia também pensava que o tempo deveria passar mais depressa, para deixar de ver crianças nos tribunais.

Talvez um dia a sociedade proporcionasse a estes pais espaços para os ajudar enquanto pais na partilha das responsabilidades e afectos, para os ajudar enquanto casal a desunirem-se sem mágoas, sem gritos, sem guerras judiciais para que os filhos pudessem continuar apenas a ser filhos e os pais se responsabilizassem a ser pais.

Colete amarelo: eu enquanto pessoa também existo…

Enquanto automobilista, quando uso o colete amarelo quero tornar visível para os outros que seguem o seu caminho que estou vulnerável, que estou numa situação de perigo e que essa minha fragilidade também os pode colocar numa situação de vulnerabilidade. Comunico de pessoa para pessoa…


Em França o movimento « colete amarelo », que perdura há vários meses, mas sem expressão significativa em Portugal, abalou o poder político instituído e o presidente saiu à rua de forma epistolar, escrevendo aos franceses, falando com os franceses através dos seus autárcas enquanto poder que considera mais próximo do povo,palabra questionável na sua utilização que não deixa de remeter para uma sociedade enclausurada em classes: a nobreza, o clero e povo.

Estamos de facto em lógicas de funcionamento divergentes. Os politicos, mesmo eleitos democraticamente, continuam numa lógica institucional, hierárquica, organizacional da qual são aprendizes durante muitos anos nos meandros das estruturas partidárias, sindicatos e afins. Não deixam de lutar por uma organização mesmo dita mais igualitária mais democrática porque defende a liberdade de voto e eleições livres (embora mesmo assim os dados possam estar viciados) . A representação pelo voto é muitas vezes delegada em função de simpatias, de histórias, de afinidades por um percurso mais do que propriamente por um programa eleitoral que poucos lêem, daí nas épocas de eleições, na procura de ondas de empatia, saírem de facto à rua e realmente juntarem-se ao povo como potencial eleitor.

Um eleitor que apenas elege a sua representação no funcionamento da continuidade institucional do estado. Esse estado é ele proprio também ele dependente de instituições internacionais centradas, como o nosso pequeno estado, nas próprias dinâmicas de sobrevivência interna e externa para as quais as pessoas com as suas necessidades e vulnerabilidades são formiguinhas (também elas vivem em castas) que apenas servem para sustentar a organização do formigueiro.

Aqui ao falar com os autárcas, o presidente francês transmite ao referido « povo » que só se comunica com iguais, de institucional para institucional, não com gente que questiona as instituições , as hierarquias, as organizações. Não se comunica com as pessoas que apenas são pessoas, comunica-se com eleitores, compatriotas, cidadãos, consumidores com os quais se procura consensos ( fica sempre bem em qualquer discurso ou abordagem), consensualizações, compromissos que não deixam de revestir, por baixo de manto da procura da paz social, um logro.

Calar a expressão de realidades diferentes apenas camufla o conflito sem realmente introduzir qualquer mudança que constitui uma maior valorização para as pessoas e para as instituições que auto-proclamam que estão ao serviço das pessoas, mais de umas do que de outras, e por isso tanto tardam em valorizar as pessoas como elementos participativos das instituições que sustentam a nossa sociedade.

O bom e o mau juiz

Sou mais viajante  do que turista, gosto dos lugares que convidam à reflexão, à cultura, à lentidão. Gosto de lugares que nos interrogam, que nos obrigam a pousar-nos no tempo.

Não é necessário ir par além fronteiras para qualquer ilha distante para usufruir deste luxo que nos permite afastar-nos desta lufa lufa da informatização, industrialização, consumismo, do rebuliço da (des) informação desenfreada sobre tudo e mais alguma coisa.

A complexidade das sociedades e da inventividade humana é difícil de acompanhar e os momentos de distanciamento, o reencontro com o silêncio são essenciais para preservar algum espaço de reflexão interna e reencontrarmo-nos face às nossas apreensões, aspirações nesta sociedade sempre em movimento.

Neste mundo em constante mudança, há dilemas antigos que atravessam os séculos e que permanecem inalterados, subsistindo nas danças profundas de transformação das sociedades. Foi o que me suscitou a descoberta do fresco sobre a alegoria da justiça do Juiz bom e do Juiz Mau no Museu dos Frescos Monsaraz

O artista corajosamente, porque era preciso muita coragem para se envolver em qualquer ousadia no século XV que era paga com a própria vida, questionava o que hoje em dia é comum nas redes de comunicação, as práticas de corrupção que desprestigiam o exercício da justiça.

Bem par além dos pensamentos binários de bom e mau que são sempre redutores, como em qualquer profissão deve haver melhores e piores. E talvez haja juízes, que nas suas vulnerabilidades humanas com dúvidas e angústias pessoais, em certos momentos exerçam melhor e noutros dias de forma pior a sua profissão.

O bom juiz no cinema, na literatura é geralmente um justiceiro corajoso, criticado pelos pares e pela própria hierarquia representada como servil face aos poderes instituídos. O bom juiz é um juiz atípico, austero, muitas vezes viúvo ou solteiro, um homem solitário quer na vida pessoal quer na esfera profissional. É geralmente um homem (há poucas mulheres na ficção contrariamente ao observado empiricamente na realidade) que está só contra todos como qualquer herói justiceiro que não se deixa seduzir nem por prestígios sociais ou políticos nem, tal como no fresco, por mais-valia financeiras.

O bom juiz afinal, tal como o artista do fresco é um homem revoltado (no sentido de Albert Camus) contra as ideologias, os dogmas, as certezas, a moral vigente. É apresentado como um ser excepcional no mundo em que se move, defensor intransigente de uma justiça intemporal e idealizada exercida em prole da defesa dos desclassificados e oprimidos.

Alguns filmes relatam a visão romanceada de alguns juízes fora do comum, mártires de um ideal, como o Juiz Pierre Michel, assassinado em 1981 pela máfia marselhesa ou como o juiz Giovanni Falcone que também pagou com a vida a sua luta por denunciar a promiscuidade entre a máfia e o estado italiano.

Na ficção, o bom juiz desempenha a função do contrapoder do poder judiciário que apenas tem legitimidade pela autoridade interna que lhe confere a administração judicial.

Apesar da evolução da sociedade, de uma justiça de maior proximidade, a ficção continua a impor essa imagem caricatural, pouco vulgar nos corredores dos palácios da justiça.  Pois a justiça, embora de maior proximidade, continua a ser exercida em palácios que muitas vezes se assemelham aos castelos de Kafka no qual o comum dos mortais fica desorientado e esmagado por uma construção que confunde a racionalidade e o pensamento.

Nos palácios, nas representações caricaturais vivem os ricos, os poderosos que vivem de mordomias e cujo único trabalho é alimentar a sua vaidade e preservar as suas regalias. É a caricatura do “ mau juiz”, do fresco mas também  do conto africano de Blaise Cendrars e do infeliz alfaiate que vê o fruto do seu trabalho danificado pelos buracos encontrados nos fatos e que atribui tal culpa, sem qualquer dúvida ao rato que na escalada das atribuições de culpa transfere a responsabilidade para o gato que acusa o cão… Cansado, o alfaiate recorre ao juiz, um babuíno preguiçoso que interrompido na sua sesta apenas aspira a retomar a sua tranquilidade, expedindo o mais rapidamente possível o julgamento.

O mau juiz afinal de forma caricatural está apenas preocupado em preservar o seu conforto e a sua tranquilidade em detrimento do exercício ponderado e exempto da justiça. A alegoria também nos remete para uma reflexão sobre questões entre a moral e ética, sobre a prevalência de uma atuação centrada no pensamento reflexivo e critico ou um modo de pensar e actuar limitado pela moral e as ideologias.

O primeiro incentiva à desconstrução e à projeção para um modo de funcionamento mais ético e centrado nas reais necessidades das pessoas, o segundo  para  permanência e para a estagnação.

Felizmente o mau juiz é, ouso pensar, uma caricatura com os dias contados, embora ainda me tenha ocasionalmente cruzado com alguns, tantos bons como maus.

É difícil ser bom, mas também é cada vez mais complicado ser mau juiz numa sociedade civil mais atenta e exigente, complexa e vigilante que obriga o exercício de qualquer  função a uma formação contínua e que exige que o poder de decisão, humildemente se fundamente  em conhecimentos transdisciplinares e assessorias diversas.

Contrariamente à imagem veiculada pela ideologia do bom juiz, afinal não é a justiça que muda o mundo mas sim as pessoas.

São as pessoas e as evoluções societais  que transformam a justiça, as instituições, os poderes instituídos e abalam as iniquidades, as representações binárias e restritivas que atravessam os séculos, os anos e a inércia que limitam as representações que sustentam o nosso pensamento e as nossas vidas.

A mediação: uma pedagogia da comunicação, da qualidade das relações humanas e da resolução de conflitos

a-diversidade-humana
Tarsila do Amaral (1933)

Temos assistido desde o início do século a mudanças aceleradas ao
nível da família, da conjugalidade, da relação simbólica com os filhos
e mesmo nas relações profissionais e familiares, decorrentes do
questionamento do que é ser homem e ser mulher, pai e mãe, funcionário, chefia,cidadão, governante…

O coexistir é uma dimensão muito exigente porque nos confronta com os
nossos limites de pensar, de falar, de agir.
Mesmo assim ainda há quem se acomode em ser pai de fim
de semana quer na conjugalidade quer após a rotura da relação. Também
há mães de fim de semana mas de forma menos frequente ou diferente e
menos visível porque a sociedade ainda as exorta à maternidade total,
mesmo cumulando com as outras exigências de” wonder woman”.
Os cuidados das crianças quando são pequenas, a valorização da
amamentação na criação de vínculos privilegiados ainda remete o homem
e pai para um papel secundário embora provedor principal do bem estar
daquela criança, desculpabilizando o seu menor envolvimento nos
cuidados a prestar.
Mesmo com este autosacrificio imposto ou voluntário que como a maioria
dos actos de bondade não são mais do que a pretensão de impor aos
outros os nossos valores e modos de funcionamento, há cada vez mais
homens a questionar a primazia (e também o ónus) do papel reservado às
mães.
Estes questionamentos sobre o que é ser pai,  o que é ser mãe, homem e mulher dão
lugares a muito sofrimento, incompreensões, não ditos ou ditos
reivindicativos, depreciativos e por vezes até insultuosos.
O tribunal não é de certeza o lugar mais feliz para cuidar das ansiedades
existenciais.

A judicialização destas questões trilha caminhos íngremes, dolorosos, dispendiosos e sobretudo desresponsabilizantes em que os pais procuram, de forma privilegiada, numa entidade que pouco ouve e ainda muito escreve numa verbiagem inacessível, alguém que os conforte na sua forma de funcionamento.
Há cada vez mais profissionais e até juízes que remetem os pais e as mães para lugares e para profissionais que lhes permitam falar e negociar sobre estas novas formas de ser pai e de ser mãe, mesmo quando estão zangados, mesmo quando já nem sequer conseguem olhar um para o outro.
A mediação pode ser esse espaço em que as pessoas aprisionadas no seu desamor, rancor, desencanto, nas suas posições, pontos de vistas, alegações e crenças para encontrar uma maior liberdade em que o outro deixa de ser visto como uma ameaça, um constrangimento e um adversário.

Os conflitos podem tornar as nossas vidas num inferno, minam a nossa saúde, hipotecam a nossa capacidade de ser feliz.
A mediação é uma aventura na reconstrução da relação, do reconhecimento do outro, dos nossos limites de pensar o outro abalando posições e convicções.

Desconstruir, encontrar alternativas não se faz com moral, nem boas intenções. Se assim fosse este mundo seria um mar de rosas sensaborão.
Na realidade, o plural impõe-se quando se fala de mediação, há tantas e variadas formas, das mais psicologisantes às mais soporíferas e angelicais até ás mais moralizantes que vaticinam um discurso jurídico sobre o dever ser.

O próprio sistema judiciário apenas encara a mediação como uma tentativa inócua, uma espécie de tratamento homeopático e alternativo ao qual pouco recorre.

Os próprios mediadores pouco lutam para desfazer o engano, tentando os que têm mais visibilidade  ganhar a vida multiplicando formações sobre a prática da mediação que pouco praticam e difundem na sociedade civil.
A mediação, não é uma tentativa/alternativa de “gestão” de conflitos, mas a promoção de um processo estruturado, de uma metodologia de intervenção centrada não na gestão (expressão paradoxal) mas na resolução de conflitos, de estruturação dos modos de pensar, agir, de se relacionar de forma responsável e mais satisfatória.
Porque ninguém vive feliz e contente no desconforto de uma relação. Na vida em sociedade, a aspiração a viver mais feliz e mais realizado no viver juntos, no coexistir é uma aspiração universal em que o outro não é assim tão diferente de mim.

A qualidade das relações humanas é algo que exige trabalho, que se aprende (embora esquecida nos currículos escolares) que se transmite porque a outra dimensão que mais partilhamos enquanto humanos é sermos uns desajeitados em termos relacionais e comunicacionais.
Esta falta de jeito não é uma fatalidade e cada um pode interpelar de forma diferente, com a ajuda de um profissional da comunicação e da resolução de conflitos, uma maior qualidade relacional na família, no desamor, na vida profissional, nas organizações, e no seu papel geral de exercício de uma cidadania livre e responsável.